via@Marta Caetetu

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Bravo!

Já pensava na Universidade, antes mesmo de
chegar ao Segundo Grau (atual Ensino Médio),
quando me tornaria a Normalista do Instituto de
Educação, na Tijuca, que ainda transbordava traços
dos Anos Dourados.
 Foi a decisão acertada do meu pai, combinada
com o desejo secreto da minha mãe.
 Eu queria estudar Química no CEFET ( Centro
Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da
Fonseca) e meu pai, que tudo sabia de mim, iria me
conduzir ao encontro da realização profissional e
pessoal.
Enquanto a Normalista fazia as vezes de Bela
Adormecida, sonhava com a Universidade.

Anos 70
Valonguinho - Niterói

 Então, fui conhecer a UFF; um objetivo ainda
distante no tempo mas arquitetura perfeita do meu
desejo.
 Logo que entrei no elevador vi um jovem
rapaz. Ele usava óculos e tinha um ar aristocrático e
taciturno ; tinha um olhar circunspecto.
Senti que aquele não seria um encontro
qualquer. Foi como se conversássemos pelo olhar.
 Gelei! Suei!
 Saí daquele elevador com uma sensação de
leveza, de êxtase.
 Meu noivo, depois disso, nunca mais me
pareceu o mesmo.
 Continuei minha turnê e, após umas duas
horas, vi um conhecido conversando com aquele
que havia me afetado de um jeito singular.
Esperei, claro! Quando se afastaram, fui atrás do
meu colega. Para quê?
Precisava saber alguma coisa a respeito do rapaz
que, mesmo sem fazer, absolutamente, nada,
invadiu pensamento e coração.
Meu colega disse que ele era inteligente e engajado,
politicamente.
Havia participado do encontro, à época clandestino,
da UNE, em 1968.
 Quando eu ia perguntar o nome dele, meu
colega saiu correndo para não perder o ônibus, que
passava de hora em hora.
 E eu, eu viveria com o momento do elevador,
sem, ao menos, saber o nome do meu príncipe
encantado. Bom, pelo menos eu sabia que ele existia.

Anos 80

O noivado terminou e a Normalista já era Professora.
Participei de Colônia de Férias no Primeiro
Regimento de Carros de Combate, com direito à
presença de João do Pulo.
No ano seguinte, Professora Primária (atual Ensino
Fundamental I) da Prefeitura da Cidade do Rio de
Janeiro.
Vestibular para Medicina!!
Pularei este episódio.
Vestibular para Ciências Sociais...
Passei. UFF, sonho realizado!
Casei.
Afinal, o rapaz do elevador, que usava óculos e tinha
um ar aristocrático e taciturno, que tinha um olhar
circunspecto, apenas ocupava algum lugar
escondido na minha memória.
 Em sala, aguardando o início da aula de
Ciência Política, a memória foi revisitada (e
contemplada).
 O rapaz de óculos, com ar aristocrático e
taciturno, de olhar circunspecto, agora era um
homem. Um homem de óculos, com ar aristocrático
e taciturno, de olhar circunspecto, que se tornara Professor.
E ao ouvir sua voz, não tive dúvida alguma de
que ela seria música eterna para mim.
 Gelei!
 Suei!
 Estudei...
 Meu marido não gostava da forma como eu
falava sobre o Professor.
 E o Professor, este parecia que lecionava só
para mim. Seu olhar, sempre encontrava o meu e
para mim, nosso olhar era enamorado.
Entre idas e vindas, o casamento acabou.
Vivido o luto, fênix voltou para o mundo.
E, novamente, o rapaz do elevador, que se tornara
Professor, daria o tom da Ciência Política.
Mas dessa vez, meu corpo encontrou o dele...
Foi mágico para mim.
Mais, ainda, quando ele cantou a música-tema do
filme Casablanca, a pedido: uma alegria imensa
invadiu meu coração!
Nunca soube se ele compreendia o quanto me
afetava.
 Um certo dia, o Professor, que usava óculos e
tinha um ar aristocrático e taciturno, de olhar
circunspecto, disse que era noivo de uma garota do Leblon...
Não chorei, não briguei.
Foi como se meu coração tivesse parado de
bater.
 Faltou-me o ar.
 Apenas despedi-me, formalmente,
delicadamente.
 Enquanto caminhava de volta para casa, a
memória uniu aqueles momentos e os guardou com
carinho.
 E a garota do Leblon, que não sei se era linda
e cheia de graça, caminhou por longos anos nos
meus pensamentos, até que atravessou meu mar.

Anos 90

 Mais tempo se passou...
Já lecionava Sociologia na SEEDUC/RJ.
Corpos suados.
Bocas beijadas.
Tive o prazer de ser mãe, ainda que por poucos
instantes.
A roda do tempo, que insiste em rodar, foi amiga e
companheira.
E quando já havia decidido que meu coração seria
terra onde somente eu plantaria, recebi um e-mail, no mínimo,  intrigante.
Cheguei em casa para trabalhar um pouco mais com
Rousseau, Hobsbawm, Durkheim, Platão, Locke e
tantos outros, que ocupavam meu tempo e minhas
ideias.
Computador ligado, sentei-me em frente ao
monstrinho assustador, que havia domesticado.
Fiz alguns registros, organizei exercícios e digitei O
Mito do Amor, que usaria dois dias depois.
Então, fui ler e-mails.
O último e-mail recebido, era do rapaz, que se fez
homem e se tornou Professor.
Ele quis saber se eu lembrava dele, como estava,
essas coisas. Escreveu um número e eu telefonei.
Conversamos por algumas horas sem percebermos.
Parecia que havíamos nos encontrado no dia
anterior.
Pois é, acho que ele também havia sido afetado por
mim, mas até aquele momento eu não sabia.
Nossos corpos permaneceram buscando outros corpos.

Anos 2000

Voltei à UFF para cursos de especialização,
no Campus Gragoatá, que não existia nos anos 80.
 Fiz vestibular de novo! Agora era
Pedagogia/UFF.
Passei!!!
 Frequentando aquele espaço, não me
preparei para a possibilidade de reencontrar o rapaz
do elevador, que usava óculos e tinha um ar
aristocrático e taciturno, de olhar circunspecto, que
se tornara homem e Professor.
Mas o momento chegou.
Não nos reencontramos.
Simplesmente, o observei.
Gelei.
Suei.
Chorei e sorri...
Pouco tempo depois, ele telefonou.
Outra vez, tive a sensação de que nunca havíamos
nos separado.
Doce sensação. Apenas sensação.
Nos encontramos, conversamos.
Agora, o rapaz, que se fez homem e que era o
Professor Dr., era também um Lord.

Bem, foi assim que ele me pareceu.

Não nos falamos por alguns meses, até que recebi
mensagem para adicioná-lo no meu Facebook.
Não o fiz de imediato. Outros convites vieram, quase
que diariamente.
Foi, então, que, em um dia frio e chuvoso, por sorte
com energia elétrica, cheguei do trabalho, liguei meu
monstrinho domesticado e aceitei o convite.
Gelei.
Paralisei.
Chorei.
Seu corpo unira-se a outro corpo, por meio de um
artefato circular.
A mim, coube tão somente parabenizá-los.
Ele me telefonou.
Eu não queria muita conversa.
Afinal, ele permanecia senhor dos meus afetos.
E eu? Eu só queria que ele fosse feliz!
Porém, o artefato circular não foi o bastante para
superar a lei da gravidade em seu relacionamento.
Mais tempo passou...
Acho que permaneço em sua memória como luz,
que, não sei o porquê, ele mantém acesa.

Sei que em mim ele permanece flamejante.
E assim, será.
Hoje, quem sabe, nossos cabelos grisalhos nos
representem...
Poderemos, então, a quatro mãos, escrever novos
episódios?
Contaremos como estamos felizes, aceitando
nossas imperfeições?
Viveremos o tempo que temos, lado a lado, como
amantes, amigos, companheiros?
De dez em dez, chegará o tempo do
para sempre, depois de tantos e tantos
desencontros, como se jamais tivéssemos nos
separado?
Não possuo as respostas...
É um caminho de mão dupla...
E o meu, sigo, sem rendição!
Continuo meu voo solo
E uma vez ou outra,
A Marta de ontem diz à Marta de hoje:
"Parabéns!"
      Marta Caetetu